
Num roteiro cinematográfico, o que move os personagens é a ação. É comum a confusão que algumas pessoas fazem diante desta palavra. Ação não está necessariamente ligada ao gênero fílmico caracterizado por correrias, tiros e explosões. A ação de um personagem pode ser tanto grandiosa, ocasionada por uma impactante influência exterior, como pode ser algo sutil, movido por uma busca interior. É esta última definição que move os personagens do drama Asas do Desejo, do diretor alemão Wim Wenders (Paris, Texas).
O longa de 1987 parte de uma premissa simples: o que aconteceria se um anjo se apaixonasse por uma humana? Este é o conflito que permeia toda a obra e que move o personagem Daniel, o anjo em questão. Apaixonado por Marion, uma bela trapezista de circo, Daniel questiona sua condição angelical e pondera até que ponto vale à pena abrir mão da eternidade para viver uma história de amor.

Entretanto, o filme de Wenders vai além e apresenta questionamentos muito mais profundos e pertinentes para a sua época de realização. Filmado em Berlin, meses antes da derrubada do muro que dividia a capital alemã, Asas do Desejo busca a reflexão sobre a condição humana num mundo marcado pela depressão do pós-guerra, pela falta de esperança e pelo pessimismo. Tudo isso é refletido pela perspectiva dos anjos, que enxerga a humanidade a partir da fotografia em preto e branco, com os característicos traços expressionistas do cinema alemão, utilizada na produção. Os anjos são aqueles que acompanham de perto os sofrimentos humanos e procuram aliviar seus temores e preocupações. Boa parte das falas presentes no longa são fluxos de pensamentos de homens e mulheres ouvidos pelos anjos, enquanto os acompanham. São poucos os diálogos utilizados e o silêncio, paradoxalmente, se faz presente de maneira ensurdecedora, dando o tom da solidão que circunda os protagonistas (anjos e humanos), na fria cidade de Berlin. Tanto os fluxos de pensamentos quanto o silêncio são mecanismos incomuns no cinema moderno e resulta numa brilhante dramaticidade, graças à habilidade de Wenders, um diretor diferenciado.
A metafísica toma conta do filme e, sob esta perspectiva, é possível extrair uma mensagem positiva da produção. Um dos maiores desejos alimentados pelo ser humano ao longo de sua existência é a eternidade. Porém, o que poderia valer mais do que isso? Pela ótica angelical de Daniel, os seres humanos possuem a capacidade de amar, o tato, o paladar, as cores e, principalmente, o descanso eterno. Para um anjo, poder aquecer as mãos esfregando uma na outra, tomar café, fumar um cigarro, sangrar, amar e morrer são algumas das coisas que valeriam o abandono da imortalidade. Todos nós possuímos essas coisas e não damos valor a elas. Uma valorosa lição que só poderia partir do alto.

Personagens tão complexos não poderiam ser interpretados por quaisquer atores, e o elenco de Asas do Desejo é fenomenal. Bruno Ganz entrega uma interpretação magistral de Daniel, transitando com assustadora perfeição da frieza e objetividade angelical, para o espanto e constante encantamento humano diante das descobertas. Otto Sander faz do anjo Cassiel um perfeito escudeiro e aconselhador de Daniel, disposto a ouvir os questionamentos do amigo, independente de concordar com eles ou não. Solveig Dommartin, com sua beleza enigmática, imprime em Marion uma mistura de inocência e sensualidade, e mostra por que até mesmo um anjo seria capaz de se apaixonar por ela. Além deles, duas participações especiais merecem destaque: Peter Folk, astro da série de TV Columbo, interpretando a si mesmo, mas como um anjo caído que serve de guia para Daniel, e Curt Bois na pele de um poeta que reflete sobre a relevância de sua obra para o mundo.
Uma referência para o cinema alemão do pós-guerra, Asas do Desejo é um marco para a obra audiovisual européia, e um retrato significativo do mundo bipolar que estava para mudar com a união de uma nação dividida, em busca de identidade.













































