You are currently browsing the Bazar das Palavras category.

O Bazar das Palavras ganhou uma mascote

Presente da Designer Chairim, o sebo e o blog ganharam uma simpática mascote. O logo já está estreando ai em cima, em breve a corujinha de corpo inteiro, vai ai um esboço.

30
05

Sapateiro, não vá além das sandálias!

Apeles, um pintor grego, estava pintando um retrato, um sapateiro viu a cena representada na tela e criticou o desenho das sandálias, o pintor acolheu a crítica e corrigiu a obra, cheio de si o sapateiro resolveu criticar o restante do quadro, e a expressão de Apeles: Sapateiro, não vá além das sandálias foi pronunciada e mais de mil anos depois ainda temos pessoas que nada tem a ver com o seu negócio opinando.

A última da vez foi uma professora, que cheia de si, quis ensinar a este cidadão que vos escreve como marcar preço em livro… e eu lá entro em contato com quem não conheço para dar opiniões que não me foram solicitadas? Me poupe! Não vou ensinar ela a dar aula, vou?

Última citação deste post, promento: Não existe ninguém mais arrogante do que um escravo recém-liberto (C.S. Lewis). Queiramos ou não, a tecnologia e sobretudo a internet, nos libertou, nos deu acesso a informações, muito mais rápido do que em qualquer outro momento da civilização, porém a que custo? Ao custo da arrogância e prepotência, ao custo de se ler meia linha e achar que se sabe tudo, como os jornalistas (”um oceano de conhecimento por um dedo de profundidade”, ok, parei com as citações!!!). Nem tudo o que precisamos e devemos saber, ou gostaríamos de saber está na internet. Até está, a um click do mouse temos o Google, o pai de todas as respostas, o grande irmão travestido de oráculo, porém a internet aceita tudo, sem restrições, sem perguntas, sem questionamento.

Em uma das últimas revistas “Entre Livros” que comprei antes que a publicação deixasse de ser mensal, li na coluna do Umberto Eco o desespero dele com a informação fácil e rápida, mas de qualidade duvidosa, que os alunos dele encontravam na internet. Como bom professor ele não os impediu de usar tão valiosa ferramenta, pelo contrário, os ensinou a serem críticos com as notícias e matérias encontradas na rede. Um dos exercícios propostos por ele a sua classe foi dos alunos pesquisarem na internet uma informação e explicarem por que ela estava errada.

O que eu quero dizer com tudo isso: Arrogância e prepotência não levam a lugar nenhum, a não ser serem taxados de ridículos por quem sabe um pouquinho mais ou não teve preguiça de pesquisar corretamente uma informação.

Portanto, se forem criticar o preço fixado em um livro antigo, asseguren-se de algumas informações básicas, nem sempre disponíveis na internet, tais como: diferenças e peculiaridades da edição ofertada, particularidades das obras comparadas, algumas edições simplesmente não tem comparação pois são únicas. E por fim, não digam para um livreiro que ele está cobrando um livro muito caro se não tem interesse em avisá-lo quando ele está sendo estúpido em cobrar algum outro muito barato ;-)

Próximo post mais descontraído, prometo!!!!

27
11

Uma Festa Brasileira comentada pelo jornalista Marcelo Coelho

Diretamente do site da TV Cultura de São Paulo, resenha escrita pelo jornalista Marcelo Coelho para o programa Entre Linhas:

09/12/2007
Uma festa brasileira
por Marcelo Coelho
Sociólogo, escritor e articulista

Os portugueses chamam esta cidade de Ruão, mas fica um pouco esquisito… Será melhor dizer, como os franceses, Rouen? Pouco importa. A principal cidade da Normandia está repleta de referências literárias.

Foi aqui que num famoso passeio de carruagem, com as janelas fechadas, Madame Bovary traiu o seu marido.

Em Rouen, em 1711, nasceu a autora de um conto de fadas que todo mundo conhece: “A Bela e a Fera”. Era uma babá, chamada mme de Beaumont.

Foi também nessa cidade, em 1562, que o pensador Michel de Montaigne conheceu três índios brasileiros. Foi da conversa com eles que nasceu um de seus mais importantes ensaios, “Sobre os Canibais”. Numa época em que ainda se discutia se os índios eram mesmo seres humanos, Montaigne indagava se os europeus podiam se considerar superiores aos canibais brasileiros. “Eles matam seus inimigos em combate, e depois os cozinham. Nós os cozinhamos vivos”, observa Montaigne, referindo-se aos hereges condenados a morrer na fogueira.

Mas os índios brasileiros já eram vistos em Ruão há um bom tempo. Saiu agora em português “Uma festa brasileira” livro do pesquisador Ferdinand Denis, escrito em 1850. Denis recupera a história de uma grande cerimônia realizada em Ruão, em 1550, em homenagem ao rei Henrique II, que visitava a cidade com sua esposa, Catarina de Médicis.

Às margens do Sena, recriou-se uma paisagem brasileira, com papagaios e sagüis. Foi uma verdadeira superprodução, com trezentos figurantes, entre os quais cerca de cinqüenta índios de verdade. Fizeram-se réplicas de aldeias, os índios (e muitos marinheiros franceses mesmo) dançavam nus, fumavam, deitavam-se em redes e atiravam flechas, para encanto dos nobres ali presentes. Na apoteose final, encenou-se um combate entre tupinambás (aliados dos franceses) e tabajaras (aliados dos portugueses). Um verdadeiro carnaval.

A edição de “Uma Festa Brasileira” é muito bem cuidada, com texto bilíngüe, trazendo notas eruditas e apêndices curiosos, e também a reprodução de uma gravura de época. Denis transcreve, além disso, um texto raríssimo, publicado em 1551, que foi o relato oficial dos detalhes da festa.

Era uma época de globalização. Os franceses não ficaram conhecendo apenas os canibais brasileiros. Graças a Catarina de Médicis, mulher de Henrique II nascida em Florença, eles tomaram conhecimento de um importante utensílio gastronômico: o garfo, até então ignorado naquelas regiões tão selvagens da Europa.

——————————————-

Marcelo Coelho

Nascido em 1959, na cidade de São Paulo. Formado em Ciências Sociais pela FFCLH-USP, mestre em Sociologia com tese sobre a construção de Brasília e o governo Kubitschek. É articulista da Folha de S. Paulo desde 1984. Publicou, entre outros, “Gosto se discute” (Ed. Ática, 1994), “Jantando com Melvin” (Ed.Imago, 1998), e “Folha Explica Montaigne” (Publifolha, 2002). Seu mais recente livro é “Crítica Cultural: Teoria e Prática” (Publifolha, 2006).

Link da matéria:
http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas/colaboradores.asp?colabresenhaid=40

13
12

Nunca te vi… sempre te amei

Achei em um sebo… sim, livreiros também freqüentam outros sebos além do próprio. Óbvio! Como comparar preço e garipar raridades para os clientes? Nessa visita específica que fiz a um sebo da zona sul de São Paulo, achei uma raridade para mim mesmo, que há muito procurava: “84 Charing Cross Road”.

Raridade, essa palavra é muito complicada. Para uns, livro raro é a 2ª edição das “Poesias Completas” do Machado de Assis com um erro ortográfico, onde a palavra “cegara” escrita pelo autor na apresentação da obra foi grafada errada, com um “a” no lugar do “e”. Mas para mim, raro é o que queremos e não conseguimos achar. Esse livro era uma dessas coisas difíceis de se achar por aí… o problema é que parece algum tipo de maldição, ao menos comigo: sempre quando quero muito o livro e finalmente ele aparece e eu tenho a chance de comprar, em questão de semanas novos exemplares surgem como que caídos do céu por acaso…

Mas eu estou enrolando muito neste post de hoje. O que eu queria falar mesmo é sobre o “84 Charing Cross Road”. Ele foi editado no Brasil com esse nome, mas é mais conhecido pelo nome do filme que saiu na década de 80 com a Anne Bancroft e o Anthony Hopkins: “Nunca te vi… sempre te amei”. Conta a relação entre uma escritora norte-americana, Helene Hanff, e um livreiro inglês, Frank Doel, que trabalhava em uma livraria antiquária em Londres, chamada Marks & CO., localizada no número 84 da rua Charing Cross.

O livro é a coletânea das cartas que foram escritas durante anos entre a escritora e o livreiro. Através de pedidos de livros, trocas de confidências, envios de presente, vai criando entre eles uma relação muito interessante.

Diz a lenda que as cartas foram descobertas em um sebo de Nova York pela atriz Anne Bancroft, que as teria achado guardadas dentro de um livro. Ela apaixonou-se pelo conteúdo das cartas e fez o seu marido, o diretor e produtor Mel Brooks, realizar o filme.

Cá com os meus botões, a história parece bonita e sei que pode ser verdade. Já encontrei tantas coisas dentro de livros que comprei de pessoas que estavam se desfazendo de bibliotecas que não lhes pertenciam, que tinham sido do avô ou do pai! Uma vez, dentro de uma coleçãozinha de missais romanos que comprei, veio um presente e tanto. A senhora que deveria tê-los possuído era da alta sociedade paulistana, e isso foi parar na mão de um bisneto, que não deu importância alguma. Dentro deles havia centenas de “santinhos” de falecimento de pessoas de alta posição em São Paulo, no início do século passado, como Dona Veridiana da Silva Prado, Paulo Prado, Barão de Duprat, entre outros. Além disso também tinha santinhos de primeira comunhão de diversos membros das famílias Monteiro de Barros, Prado, Penteado, Prates, Nioac, etc, mas bonito mesmo eram aqueles feitos na França, um mais lindo que o outro. Um deles abre-se inteiro montando um altar triplo, tendo Nossa Senhora no centro e outros dois santos nas laterais. Quem se desfaz desse tipo de coisa??? O mesmo tipo de pessoa que deve ter-se desfeito da biblioteca da autora Helene Hanff e nem viu que dentro de um dos livros tinha toda a correspondência, maravilhosa, entre ela e sua alma gêmea inglesa.

13
12

O bom, nunca vem sozinho…

Uma das satisfações de se trabalhar com livro é constatar que o que diziam velhos livreiros tem lá a sua verdade: “Todo livro tem seu dono”. E na maioria cabe a nós, livreiros, realizarmos o casamento. Se bem sucedido, homem e objeto serão felizes para sempre, se acabar em divórcio provavelmente o livro voltará para a casa paterna, a estante da livraria.

Como todo livreiro tem um “quê” de alcoviteiro, tenho orgulho de algumas uniões realizadas. Desde aquela feita entre um afamado escritor, com livros publicados no Brasil e em Portugual, que de certa forma ajudei coletando obras a respeito do momento histórico que ele escrevia, até casamentos arranjados entre familiares e livreiro, que uniram velhinhos e velhinhas aos seus livros de infância, que suspiravam, ambos em cada canto do mundo, de saudades uns dos outros. Além dos livros de infância, tem os livros de juventude, estes regidos unanimemente por dois sucessos de público: “A filha do diretor do circo“, que até mesmo a grande Zélia Gattai cita em seu “Anarquistas Graças a Deus”, e o outro - na realidade são inúmeros -, todos aqueles escritos por M. Delly, na indefectível “Biblioteca das Moças”. Até hoje há quem jure que se trata de Madame Delly, quando na verdade quem escrevia os açucarados romances era um casal de irmãos franceses.

Creio que não tem nada mais prazeiroso do que achar o livro que um cliente tanto quer, tanto faz se é para ele mesmo ler ou para dar de presente para alguém que procura a obra há anos.

Por outro lado…

Fiquei interessado no blog de uma das pessoas que entrou em contato comigo, fui curioso dar uma olhada no espaço do colega. Qual não foi minha surpresa ao ver lá um gif muito interessante. Curioso, entrei. Trata-se do site de uma campanha chamada “Eu sei escrever“. Finalmente alguém resolveu se mobilizar de forma inteligente contra essa lingua que está sendo difundida pela internet, que alguns acham que é português… Vou aderir, quem sabe não acabo tomando coragem e crio a campanha “Eu sei ler”. Daí, se bem sucedida, talvez não recebesse mais este tipo de pérolas pelo e-mail da livraria:

“o nome do livro é :”ILHA PERDIDA” de MARIA JOSÉ DUPRÉ eu quero o resumo do livro inteiro preciso estudar o livro e como eu sei q esse site é o melhor em resumos vou pedir a vcs preciso até o dia 20 de maio”

O rapaz nem sabe o que está falando, como assim “eu sei q esse site é o melhor em resumos”?!?!

“RESUMOS CRÔNICAS DE NÁRNIA URGENTE EM CASO DE VIDA OU MORTE”

Quem mais iria morrer além da língua portuguesa assassinada nessa frase?

Dá para escrever um livro só com pedidos esdrúxulos. Mas o troféu joinha do ano vai para a criatura que me pediu, encarecidamente, que eu passasse para ela a lista dos meus clientes, pois ela tinha acabado a faculdade e estava querendo vender os livros dela… é mole?!?!? O livreiro existe para isso, para fazer a ponte entre quem quer vender livros e quem quer comprar, se essa ponte desaparecer e o particular passar a ser comerciante, como já acontece em alguns portais de sebos, onde arrumaremos material para trabalhar? Sem contar o fato que em alguns portais, o particular não precisa pagar comissão e o livreiro precisa… o que tem de colega vendendo livro como particular…. Complicado, não?

14
11

Projetos

Depois de ter editado o livro em comemoração aos cinco anos do Bazar das Palavras (Uma Festa Brasileira realizada em Rouen em 1550, escrito por Ferdinand Denis em 1850) já estamos começando a pensar em um novo projeto.

Um cliente da livraria, que, no momento chamarei de Dr. R.B. ao saber que estávamos também editando livros me contou de um projeto que acalentava ha tempos, a biografia de Mère Louise, uma cafetina francesa. Mme. Louise teve duas importantes “casas de tolerância”, uma no Rio de Janeiro, próximo ao que é hoje o Copacabana Palace (estamos falando do início do século XX) e depois, quando mudou-se para São Paulo, fundou outra na região da Liberdade. Muito bem frequentada, como nos mostra uma carta de um membro da família Mesquita, donos do Estado de São Paulo, que tinha sido exilado em Portugal por conta se sua participação na Revolução de 32 e que escreveu para Mère Louise com lamentos de saudades de seu lupanar… O livro promete!

E a livraria? Vai muito bem, obrigado :-)

12
11

"Quem de palavras tem experiências"

Quando eu criei o Bazar das Palavras em novembro de 2002 não imaginava que a frase escolhida para a minha assinatura das mensagens trocadas entre eu e os clientes iria se tornar emblemática. Quando criei a livraria pensei em chamar de “Bazar das Letras” mas esse nome já existia, pensei então: “Se as letras são importantes para os livros, o que são elas se não formarem palavras?” e ai saiu o “Bazar das Palavras”. A frase escolhida, voltando a vaca fria, era de autoria do Saramago: “Quem de palavras tem experiência sabe que delas se deve esperar tudo”…cinco anos depois, por conta da livraria, até editor de livro eu virei.. quem diria?!

E minha mãe, como a viúva citada por Rubem Borba de Moraes no Bibliófilo Aprendiz, detestava, no meus tempos de moleque, me ver entrando com “mais um livro velho” dentro de casa, não pela cultura que eles traziam, mas por ela ter noção do quanto eles tinham custado… Hoje ela deve pensar que deveria ter me dado menos bronca e incentivado mais a gastança! (sonho meu..).

Meu primeiro in-folio ficou escondido embaixo do colchão durante meses! Hoje está todo garboso na minha estante de livros, deve se lembrar do tempo das vacas magras, quando foi “contrabandeado” para uma casa estranha, mantido em cativeiro, em lugar escuro e apertado por dias. Hoje reina soberano, livre, enfim, como qualquer in-folio que se preze deveria ser!

09
11