O que Shakespeare tem a ver com Paris?
Tudo! Não é mistério para ninguém que os intelectuais de todo o mundo preferem se esbaldar na Cidade Luz há séculos. Mas parece que os ingleses e os norte-americanos fizeram disso uma arte. Entre um caso e outro, Henry Miller escrevia, entre um porre e outro, Hemingway compunha um clássico, entre ciúmes e quebradeiras memoráveis, o casal Zelda e Scott Fitzgerald deixou testemunhos bem realistas dos “anos loucos”.
E onde entra Shakespeare nessa história? Em Paris, óbvio!
No início dos anos 20 do século passado, a americana Sylvia Beach criou em Paris a livraria Shakespeare and Company, especializada em literatura inglesa. O local tornou-se lendário, tanto por seus frequentadores quanto por suas histórias. Uma que vale a pena contar: a audaciosa livreira foi a única que teve coragem de publicar o livro Ulisses, de Joyce, tido como imoral pela sociedade da época. Mas, imoral por imoral, ela também levava a fama, já que mantinha um relacionamento homossexual com Adrienne, a primeira livreira parisiense.
Sua aproximação com o escritor irlandês acabou, porém, por custar-lhe a livraria. Em 1941, com Paris tomada pelos nazistas, um oficial alemão enamorou-se de uma primeia edição de Finnegan’s Wake, autografado por Joyce, que ficava exposto na vitrine. Como Sylvia recusou-se a vendê-lo o alemão ameaçou apreender todas as obras. Antes que isso acontecesse, ela fechou a Shakespeare and Company e guardou o acervo em um local seguro.
Mas isso não é o fim da história, muito pelo contrário.
Dez anos depois surgiu um norte-americano da geração Beat, George Whitman, sobrinho em algum grau do poeta Walt Whitman, que resolveu montar uma livraria só de autores ingleses em Paris. A segunda Shakespeare and Company foi nomeada sob as bênção de Sylvia, de quem se tornou amigo.
Localizado na Rue de la Bûcherie, 37, em um antigo mosteiro do século XVI, a livraria é o único lugar do mundo em que a bagunça pode ser considerada bela. O lugar é maravilhoso; em suas estantes, você pode encontrar primeiras edições inglesas misturadas com obras atuais, e em alguns cantos existem camas. Exatamente, camas!, onde escritores que estejam de passagem por Paris podem passar a noite. Mas com a condição de trabalhar, ao menos duas horas por dia, na livraria. Para ser aceito como hóspede nesse templo da literatura é necessário que o escritor, ou aspirante, escreva uma pequena biografia de uma página. George lendo e gostando, você já tem onde dormir na cidade. A filha de George, Sylvia Beach Whitman, homônima da primera proprietária da Shakespeare and Company, conta que o pai tem um arquivo com mais de 80 mil biografias dos hóspedes que já passaram por lá.
Como George tem mais de 95 anos, a livraria, hoje, está a cargo da filha, que modernizou recementemente o local, apesar do protesto do pai e de alguns antigos clientes. Instalou um telefone há cerca de cinco anos, e com ele vieram um computador, a internet e um site. Mas eles estão longe de ter muitas preocupações com concorrência. Faturando mais de um milhão de euros por ano, não estão ligando muito para as megalivrarias. O assunto deles é long sellers, livros que continuarão a ser lidos, como Shakespeare, ao longo dos séculos.
O fato de serem especializados em inglês, em plena Paris, também é um chamariz para turistas e estudantes de passagem pela cidade. Além da parte aberta ao público, Sylvia mantém um outro salão fechado a sete chaves. Lá entram poucos e escolhidos clientes e saem menos livros ainda. O último foi um sobre magia, editado no século XV, que foi comprado pelo Museu Britânico pelo equivalente a 13 mil reais.














































